Como vocês sabem, este é um blog de divulgação científica, mas devido aos muitos incômodos que senti com a greve dos rodoviários de hoje, achei importante colocar aqui esse texto que escrevi em paralelo à dissertação. Leiam e comentem:
Não sei quanto às empresas próximas de você, caro leitor, cara leitora, mas as que passam aqui perto de casa estão paradas. Muitas pessoas não veem além do fato que não há ônibus na rua e pensam “Que bom, não vou trabalhar / ir para a escola!” ou então “Que droga, isso só atrapalha a minha vida! Vou chegar atrasado / não vou poder ir ao meu compromisso...”. Em comum, as duas visões representam um pensamento focado mais em si do que no outro e não demonstram reflexão sobre os problemas no transporte rodoviário carioca. Que qualquer um aqui fique à vontade para ter essas visões e dizer essas frases, mas pelo menos considere acompanhar o meu raciocínio neste texto.
Todos que andamos de ônibus conhecemos as condições de trabalho de motoristas (eles em especial, mas a vida também não é mole para os cobradores). O motorista de ônibus é sempre visto como um cara “grosseiro”, “mal-humorado”, geralmente de baixa escolaridade e “mal-educado”, não é? Mas por quê? Pare para pensar um pouco no tipo de vida profissional que um cara desses tem. Ele (ou ela, afinal há algumas mulheres motoristas atualmente) acorda cedão, vai trabalhar com uma roupa quente em um ônibus que no verão carioca facilmente passa dos 40º C, em um trânsito hostil, sendo cobrado em termos de horários e cuidados físicos com o carro e punido quando transgride isso. Inclusive eles tem que pagar do seu próprio bolso por eventuais danos que ocorram em acidentes de trânsito e repor ao caixa valores subtraídos por eventuais assaltos! Já vi vários motoristas pedirem ajuda sobre por onde seguir porque foram “jogados” em uma linha sem conhecer o itinerário. Já ouvi de alguns que aqueles que são dupla função (motoristas-cobradores) se estressam muito porque tem que cuidar da entrada e saída de passageiros, pagamento de passagens, olhar o trânsito e ainda cumprir o horário! E o pior: um motorista-cobrador ganha MENOS que um motorista comum! Isso sem falar no troco, que eles nunca recebem trocados ao iniciar a jornada de trabalho e são cobrados por nós mesmos por isso. Isso é um trabalho humano? Os empresários que fazem isso são “neo-escravocratas”: botam o cara para trabalhar em duas funções, pagam menos que uma e aumentam a passagem todo ano (não há órgãos para regulamentar NADA disso?!)! E sabem o que alguns patrões ofereceram ontem para esses “escravos assalariados”? Quem trabalhasse hoje ganharia o DOBRO da diária! É mole? Você gostaria de trabalhar sobre essas condições? Ter que sustentar sua família na vida difícil que anda hoje em dia, em um momento nunca antes visto na história deste país e vender a parte reivindicadora da sua alma para o mesmo sistema que lhe chicoteia?
E sabe o que completa esse sistema cruel? Desde cedo, a grande mídia (todos conhecemos as grandes empresas de divulgação de notícias) fala que a greve de ônibus no Rio está fraca, tendo a maior parte da frota na rua. E o que vai aparecer no jornal da tarde? Pessoas reclamando que não conseguiram ir para o trabalho, que foram prejudicadas assim, assado... E, se duvidar, mostrará até alguma mãe com uma criança doente que não teve condições de ir ao atendimento médico por conta da greve! Não ignoro o prejuízo que as pessoas possam ter tido neste momento, mas pensemos de uma forma maior, nesse sistema maior, como não querem que pensemos. O apoio da mídia é descarado aos “empresários-escravocratas” e agora há a informação que marcaram uma audiência às 14h no Tribunal Regional do Trabalho para considerar a greve ILEGAL! Quer dizer, serão crucificados os que tentam alternativas para mudar esse controle.
Gostaria apenas que você pensasse nessas informações que estão no nosso dia-a-dia, mas nem sempre enxergamos porque vários “tapa-olhos” nos são oferecidos e fazem sumir os problemas de quem é desfavorecido por este sistema. Não precisa concordar, mas reflita ao menos, afinal somos todos “passageiros”. Que possamos olhar para dentro da janela do ônibus também, inspirados no trecho da música “O Passageiro” do Capital Inicial:
“(...)
Olha o passageiro
Como, como ele roda
Olha o passageiro
Roda sem parar
Ele olha pela janela
E o que ele vê
(...)”
[Crédito da imagem: http://opatifundio.com/site/?tag=folclore]